26 de fev de 2013

Das Prateleiras: Ratatouille

Posted by Aline Guevara On 22:52 0 comentários


Quando a Pixar, estúdio conhecido por sua liberdade criativa e produções originais, foi comprado pela Disney, já há muito desgastado na fórmula de produzir animações, muitos se preocuparam com os próximos projetos que surgiriam dessa união. Felizmente o estúdio de Toy Story não só manteve a sua independência como seu primeiro lançamento após a fusão das empresas foi uma das mais criativas animações já feitas: Ratatouille (2007).

Remy tem um talento imenso para cozinhar. Misturando sabores, texturas e aromas, ele consegue produzir resultados culinários incríveis e onde muitos só veem ingredientes que não combinam, este pequeno chef enxerga uma forma de criar um novo prato ainda mais impressionante. E ele também é um rato. Portanto o seu sonho de ser um grande cozinheiro tem poucas chances de se tornar realidade. Afinal, quem gostaria que um rato fizesse a sua comida?

Remy encontra em Linguini, um péssimo cozinheiro mas que consegue emprego no cargo, a sua chance de poder cozinhar em um restaurante parisiense e ter o trabalho reconhecido. Os dois desenvolvem então uma relação de benefício mútuo e uma amizade inesperada.

Com um trabalho de arte fantástico, a animação recria Paris não só em belos planos abertos que mostram a cidade do alto como também em sua periferia, ruelas e becos, contrastando a realidade dos personagens com os objetivos que almejam. 

Os personagens fogem dos esteriótipos tanto em personalidade quanto no visual. Remy não foi criado para ser uma criatura fofinha, ele é um rato que tem uma família de ratos sujos que invadem espaços para roubar comida. Portanto não somos conquistados pelos "olhinhos do Gato de Botas do Shrek" e sim pela simpatia e talento do protagonista. Assim como magrelo Linguini, com um nariz enorme e atitudes um pouco egoístas, está muito longe de ser um herói tradicional. E o crítico de restaurante Anton Ego, que pela aparência cadavérica poderia muito bem ser o vilão da história, mostra uma personalidade muito mais complexa e profunda.

O personagem de Ego proporciona uma bela análise do crítico, respeitando essa profissão muitas vezes tão desprestigiada entre os cineastas. Quando o seu apreço por comida é questionado uma vez que é magro, ele responde enfaticamente: ele não gosta de comida, ele AMA comida e se ele não amar o que está comendo, ele não engole. Ou seja, sua reverência pela arte culinária é tão grande que não aceita que esta não seja tratada com o mesmo respeito que ele mesmo dedica a ela. 

É Ego o responsável por um dos momentos mais bonitos e emocionantes do filme, quando o crítico experimenta pela primeira vez o simples prato de Ratatouille. Da mesma forma como o filme evoca brilhantemente os cheiros e sabores das comidas preparadas por Remy a partir de imagens, neste momento podemos perceber a emoção do personagem e tudo o que aquela comida tão comum, mas ao mesmo tempo tão bem feita, pode representar para o seu apreciador a partir da utilização de um flashback. É o cinema em sua forma mais poderosa e original, quando somente as imagens, sem qualquer adição de texto, podem não só dizer tudo o que precisamos saber, mas como também provocar intensamente nossos sentimentos.

Mas além de uma bela homenagem a arte de forma geral e a provocação à discussão de que "qualquer um pode cozinhar", uma clara metáfora de que o talento pode surgir dos lugares e pessoas mais improváveis, Ratatouille diverte bastante com boas piadas, ação, tensão e uma história emocionante. Recomendação máxima.

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