28 de ago de 2012

Das Prateleiras: Romance

Posted by Redação Quentin On 15:04 0 comentários

Por Gabriela Saldanha


Mais que um gênero literário, o romance é, para mim, a forma mais bela e intensa de um homem e uma mulher poderem vivenciar o amor entre si. Salvo uma minoria (que não se deixa levar por modismos e que busca transpassar a superfície das múltiplas áreas que a vida proporciona), hoje, pouco se sabe sobre a essência desta palavra e muito menos a respeito deste nobre sentimento.

Não posso nem dizer que este está sendo entoado em melodias banais e perdido entre rimas fáceis, vulgares e silábicas, pois isso seria o mesmo que confundir perfume com chorume. Num “frasco formoso” podem até aparentar semelhanças, mas, de longe, nota-se a discrepância dos aromas... Inseridos na mescla das “eras” da velocidade, da informação e audiovisual, o que encontramos pelas ruas (e em maior número, nas redes sociais) são pessoas, sim, sedentas de afeto, contudo apegadas a um tipo de resquício, um rascunho do que seria o amor. Como seria bom poder fugir de tais “caricaturas sentimentalóicas”, e então conhecer, entender, e quem sabe até, viver um grande romance.

Uma das muitas formas de parar de “nivelar por baixo” questões tão grandes como o amor, é assistindo ao longa-metragem nacional Romance (2008). O filme faz parte da mesma família de O Auto da Compadecida (2000) e Lisbela e o Prisioneiro (2003). Guel Arraes, o diretor das produções, traz em seus trabalhos características marcantes como a ótima escolha do elenco, a preparação destes mesmos atores, a fotografia diferenciada e roteiro montado com diversas referências. Além, é claro, de recorrer sempre a algumas pitadas de comédia.

Porém aqui, o título em questão possui um tom mais dramático, já que tem por base a história de Tristão e Isolda (que é a matriz das narrativas do amor romântico). Em entrevista, Arraes classifica a obra “uma terceira linha de cinema, que corresponde à nouvelle vague, na França...”, ou seja, a um movimento caracterizado pela evolução da linguagem cinematográfica.

O que torna este filme diferente é a forma como Pedro (Wagner Moura) e Ana (Letícia Sabatella) constroem a trama amorosa. Os personagens (assim como na vida real) são atores. Tudo começa no teatro, onde Pedro, que também é também diretor, escolhe Ana para ser a sua parceira de cena na peça em cartaz. Mas o coração fala mais alto. Depois de alguns ensaios, eles tornam-se namorados e, assim, vida e dramaturgia se misturam.

Na estreia, Danilo (José Wilker), o diretor de uma poderosa emissora de televisão (aqui se faz alusão a Rede Globo), fica impressionado com o talento de Ana. Ele convida a jovem atriz para trabalhar em sua próxima novela. O casal, que tem como amiga em comum a produtora Fernanda (Andréa Beltrão), entra em acordo e aceita a proposta. Porém, Pedro, após algum tempo, é tomado por um ciúme e diz que já não dá mais para dividir sua amada com teatro e a TV. Depois de uma discussão, cada um toma seu rumo.

Em plataformas diferentes (ela na TV e ele no teatro), cada um cresce na carreira. Três anos se passam, eles se reencontram e o longa ganha um novo ritmo. Os planos das câmeras que eram fechados e escuros num primeiro momento (assim como a coxia e o palco de um teatro), dão lugar a planos abertos e cores vivas e quentes como as do sertão, local em que um novo remake do romântico casal (Tristão e Isolda) é gravado para uma minissérie de TV.


E é nessa mistura de teatro, amor, comédia, televisão, ironia, ciúme, cinema e muitas citações (Nietzche, Shakespeare, Roxanne...) que o filme se arquiteta. Vladimir Brichta e Marco Nanini também tem espaço privilegiado no enredo.

O roteiro de Romance foi escrito por Arraes, diretor de núcleo na Globo ao qual pertencem produções como A Grande Família, e por Jorge Furtado (O Homem que Copiava, Saneamento Básico), que também realiza trabalhos para a emissora. O título tem co-produção da Globo Filmes.

Um filme bonito e surpreendente, digno de apreciação. E para aqueles que duvidam de seu potencial, tire a prova, pois “É só uma história! Ninguém vai morrer por causa disso!”.

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