17 de mar de 2012

Crítica: Shame

Posted by Thaís Colacino On 07:00 0 comentários



Shame não é um filme comercial. É um daqueles filmes para poucos que têm paciência de ver um drama emocional que tenta se conter mas se liberta em pequenos rompantes, assim como o protagonista, Brandon (Michael Fassbender, de Bastardos Inglórios e X-Men: First Class). 

Michael é um viciado em sexo que tenta compulsoriamente satisfazer seu único desejo, e o faz, seja com mulheres aleatórias que encontra nas noites, com prostitutas, online, masturbando-se no escritório, vendo pornografia...Ele vive a vida em seu minimalista apartamento de um quarto, chega atrasado no trabalho, mas é bem sucedido e amigo do chefe, que faz vista grossa e admira o charme que ele tem com as mulheres e tenta imitar - sem sucesso. A vida de Michael sai dos eixos quando a irmã dele, Sissy (Carey Mulligan) resolve ficar alguns dias com ele.


E então somos apresentados aos contrastes do filme. Michael é racional e aparentemente desprovido de emoção: segue uma rotina, mesmo para satisfazer seu desejo, que é refletido em seu apartamento: paredes brancas, sem decoração, sem apego, limpo e organizado. Ele usa roupas em tons sóbrios e tem praticamente um uniforme: roupas sociais e um cachecol.

Sissy é exatamente o oposto: veste roupas chamativas (desde um casaco com estampa animal até um vestido de lantejoulas dourado), fala repetidamente que ama o namorado (ou seria o caso da noite anterior?), é extremamente carente, espalha coisas pelo apartamento, faz cortes em si. E, como é cantora, faz uma belíssima rendição de New York, New York (veja um trecho abaixo), sugerindo algo do passado dos dois. Seria o "se eu conseguir aqui, consigo em qualquer lugar"? Não sabemos. O que se percebe é que ela traz à tona os sentimentos que Michael tanto quer enterrar.



A vida com Sissy por perto detona o ritmo de Michael: ele não leva garotas pra casa dele, tem a privacidade invadida, percebe que tem um problema e até parece ter sentimentos por uma garota, com a qual, obviamente, nao consegue ter uma relação. Isso leva a momentos interessantes de análise, como quando, em um restaurante, Michael, que parece simplesmente não conseguir conversar sem fazer perguntas e respostas pontuais, abre-se e conta uma opinião pessoal, permitindo-se até brincadeiras.

Enquanto isso, Sissy tem relação com qualquer um que lhe dê o mínimo de atenção, o que Michael faz com as garotas que encontra nas noites e que ele mesmo diz desprezar na irmã. Isso sugere que o comportamento de ambos tem início com os pais, mas não se fala o que aconteceu (abuso? Pais divorciados? Pais adúlteros?), nem é importante sabermos. Mas isso desencadeia a aversão a relacionamentos e busca por prazer puro em Michael e necessidade de aceitação em Sissy.

Shame é, portanto, um filme com carga dramática, bem protagonizado por Fassbender, que consegue mostrar a dor de um viciado mesmo em um momento de prazer, e Mulligan, que mostra a mistura de sentimentos através da pontuações na música ou nas situações extremas que causa a si mesma. Em suma, um filme que mostra como é ser prisioneiro de si próprio.


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