3 de set de 2012

Perdidos no Espaço da TV: The Newsroom - final de temporada

Posted by Aline Guevara On 22:42 0 comentários




"Não há nenhuma evidência que suporte que somos o melhor país do mundo. Nós somos 17º em alfabetização, 27º em matemática, 22º em ciência, 49º em expectativa de vida, 178º em mortalidade infantil, 3º em média de renda familiar, 4º em trabalho forçado, 4º em exportação. Lideramos o mundo em apenas 3 categorias: número de cidadãos per capita na prisão, número de adultos que acreditam que anjos são reais e gastos com defesas. Gastamos mais que 26 países juntos, dos quais 25 são nossos aliados. Nada disso é culpa de universitários de 20 anos, mas ainda assim, vocês são, sem dúvida, membros do pior período de todas as gerações de todos os períodos. Quando você me pergunta o que torna a América a melhor nação, eu não sei que porra você está falando."


Essa é somente uma parte do impactante discurso do jornalista Will McAvoy (Jeff Daniels) em resposta a pergunta de uma universitária que assistia a sua palestra. Essa cena pertence aos primeiros momentos do episódio piloto de The Newsroom, mas assim como ela é retomada para fechar a primeira temporada, resolvi relembrá-la porque acredito que muito do que foi desenvolvido no episódio final, The Greater Fool, tem raízes nela. 

Infelizmente, o final de temporada refletiu a série como um todo, sendo irregular. Felizmente, seus acertos são muitos maiores do que suas falhas.

(Spoilers da temporada)

The Newsroom surgiu nas telas norte-americanas repleta de expectativas, afinal é uma criação de Aaron Sorkin, que já esteve por trás de séries elogiadíssimas pela crítica e pelo público como The West Wing e Sports Night. O diálogo rápido e inteligente, cheio de ironia e sarcasmo, é uma das características mais comuns no trabalho do roteirista e aliado com o jornalismo político do novo show parecia ser uma união mais do que certa. E é. 

Leona nos dá uma lição inesquecível contando como
foi o jogo de golfe entre Moisés e Jesus Cristo
Como o próprio Sorkin definiu, a série não é sobre jornalismo e sim sobre aqueles personagens que estão inseridos naquele mundo jornalístico. Mas é justamente quando eles estão imersos na produção, apuração e debate ético da profissão que The Newsroom tem seus melhores momentos. A decisão de não noticiar o caso Casey Anthony no News Night, como foi abordado em Tragedy Porn, foi um desses momentos. Para alguém que vive no Brasil e viu a mídia explorar exaustivamente o caso Isabela Nardoni, é impossível não fazer paralelo. E com a polêmica escolha de Mackenzie (Emily Mortimer) de não noticiar o caso, vem a resposta da audiência, debandado para os outros canais que o cobrem, e da empresa, que ameaça a redação. O eterno embate entre a redação e a diretoria do canal, comandado por Leona Lansing (uma fantástica Jane Fonda), também rende ótimos momentos.

Lisa, Jim e Maggie: o triângulo dentro do
pentágono amoroso de The Newsroom
Mas outro foco da série é destinado para o desenvolvimento de interesses amorosos e esse é muitas vezes problemático. Temos o relacionamento de Will e Mackenzie, que por causa da personalidade maluca da produtora, rende muitas cenas exageradas e absurdas. Mas este casal, e a própria Mackenzie, melhorou muito ao longo da temporada. O problema maior fica por conta da geometria amorosa que começou com o triângulo Jim (John Gallagher Jr.), Maggie (Alison Pill) e Don (Thomas Sadoski), se tornou um quadrado com a entrada de Lisa (Kelen Coleman) e já evoluiu para um pentágono com a descoberta do interesse de Sloan (Olivia Munn) por Don. Uma bagunça. E a forma infantil com que todos (salvo Sloan, aparentemente a única mulher sensata da série) lidam com essa situação é difícil de aceitar. Às vezes tudo parece uma comédia romântica ruim.

Alguns episódios conseguem fazer um bom equilíbrio da sua parte cômica e dramática e os resultados são fantásticos, como o próprio piloto, The 112h Congress, Tragedy Porn e o magnífico Bullies, fácil o melhor episódio da temporada. Nele, a trama é voltada para Will e descobrimos o quanto ele é frágil emocionalmente, resultado do fim do relacionamento com Mackenzie, depressivo, dependente de medicamentos e o quanto ele precisa de atenção, e isso inclui sua audiência, para suprir esse vazio. Brian Brenner (Paul Schneider) retrata cruamente esse lado de Will em seu artigo, denominando-o “O Grande Tolo”. 

Don assiste Sloan, muito decidida a afundar
 a própria carreira como jornalista
E não é só a ótima construção do personagem que vemos neste episódio, mas também as consequências de um jornalismo praticado que, por mais se diga idealista, se afogou em sua própria arrogância, perdeu os limites e errou feio. O debate entre Will e Sutton Wall (personagem fictício interpretado por Damon Gupton), o chefe de gabinete do ex-senador Rick Santorum, foi visceral e ao final dele, ficou evidente o porquê do jornalista ficar tão abalado. Sim, o jornalismo praticado em The Newsroom também erra por tentar acertar. E isso é muito bom de ver. O surto de Sloan no caso da radiação no Japão também foi espetacular.

O último episódio foi mediano em relação há outros tantos ótimos já citados. Apesar de já desenvolver melhor os relacionamentos amorosos, a sensação é de que tudo isso não serviu de nada já que tudo volta para estaca zero. Jim e Maggie finalmente se descobrem apaixonados, mas não têm coragem de terminar com os respectivos namorados para ficarem juntos. Don nem gosta tanto assim de Maggie, mas vai morar com ela para mostrar que é um cara legal. Mesmo depois de descobrir que Sloan gosta dele (em uma ótima cena!). E a pobre Lisa está avulsa e enganada nessa história toda. Tomara que na segunda temporada esse pentágono amoroso se resolva de alguma forma, porque já ficou bem cansativo de acompanhar.

O relacionamento de Mackenzie e Will
melhora muito ao longo da temporada
Mas o relacionamento de Will e Mackenzie, juntamente com as consequências da publicação do artigo difamando o jornalista, foram muito bem explorados. E eis que voltamos à cena inicial. Will passa o tempo todo se perguntando se o artigo estava correto a seu respeito, se desde àquela palestra não estava agindo como um “Grande Tolo”, um grande ingênuo, ao invés de um grande jornalista. É interessante que ele perceba com a ajuda de Mackenzie, de Sloan e da própria universitária (e da colunista social Nina, mesmo que ele não saiba) que suas atitudes têm surtido um efeito positivo em outras pessoas, talvez mudando um pouco o pensamento de como o jornalismo está sendo praticado. 

Não sei se a estrutura de The Newsroom vai ter muitas mudanças em sua segunda temporada, então resta torcer para que minimizem os seus erros e que maximizem os acertos, melhorando a série cada vez mais. Mas independente do que vai ocorrer com ela, eu vou acompanhar ansiosa.



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