2 de out de 2012

Das Prateleiras: Ensaio Sobre a Cegueira

Posted by Natália Lins On 23:56 0 comentários



A adaptação cinematográfica Ensaio Sobre a Cegueira, baseada na obra do aclamado autor português, José Saramago, também premiado com o Prêmio Nobel de Literatura, custou a chegar às telonas. Inúmeras foram às vezes em que se tentou dar vida para a obra criada em 1995. O livro, além de toda a trama que o envolve, tem a função de propagar uma reflexão sobre a condição humana, sobre os sentimentos aflorados a partir de uma situação opressiva e sobre até que ponto a moral imposta pela sociedade influencia diante desse tipo de situação. 

O receio de Saramago era justamente o de que mostrar na tela o que se criou na mente, isso pode ser decepcionante. Quando lemos um livro, imagens e situações vão se criando em nossa cabeça e, ao depararmos com as imagens, tudo aquilo que foi imaginado se esvanece. 

Mas nem Saramago se rendeu ao talento do grande diretor brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel), que conseguiu alcançar a magnitude da obra. O filme Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008) teve a proeza de apresentar a cegueira para um público capaz de enxergar com um visual muito bem elaborado, que contou com a bela fotografia de César Charlone e com a edição perfeita de Daniel Rezende. 


A trama narra uma repentina epidemia de cegueira que acomete um grupo de pessoas que não são caracterizadas por seus nomes, moradoras de uma cidade fictícia, e, para elas, tudo se transforma em uma imensidão branca. Logo são alojadas pelo governo em um confinamento, na tentativa de conter o surto de insanidade e distúrbio que aquela minoria está causando. Os novos "cegos" passam a sobreviver numa quarentena, onde o maior mal se encontra dentro de cada um. 

O tempo se arrasta na medida em que a degradação do ser humano é exposta, em um estado de isolamento de si mesmo, aonde o amor próprio vai se perdendo em meio a salas imundas, goteiras, roupas sujas e pessoas vivas em estado de decomposição. O medo e a intolerância são estampados nos olhos dos soldados que ali estavam para contê-los, como se fossem animais perigosos.

Algo impressionante acontece na tela. Quando as condições de vida daquele lugar passam a se tornar quase insuportáveis, e a luta pela sobrevivência vai aumentando gradativamente, as cenas de abusos e desgastes psicológicos são tratadas sutilmente, de certa forma. Meirelles não esfregou em nosso rosto a crueldade que os seres humanos são capazes de fazer quando se pretende o poder, ou ante a falta de ordem. Tudo estava acontecendo ali, diante de nossos olhos, mas não se podia ver, era quase que implícito. 


O longa teve mais um ponto de ousadia: foi rodado em três países diferentes para criar a cidade que foi descrita por Saramago no livro, Canadá, Uruguai e Brasil. A maior parte das cenas externas foi filmada na cidade de São Paulo, devastada e perdida em meio ao lixo. 



Um excelente trabalho realizado por Meirelles, que foi capaz de fazer aquilo que era considerado quase impossível e que poucos ousariam fazer. Um filme que mexe com os sentidos dos que podem enxergar, numa tentativa de resgatar o afeto entre os seres humanos. E o resultado foi tamanho que arrancou lágrimas de seu ilustre criador: José Saramago.





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