25 de jan de 2013

Crítica: Amor

Posted by Aline Guevara On 17:31 0 comentários



Acostumado a fazer filmes impactantes sobre assuntos desagradáveis aos quais poucos têm a coragem para tratar, o diretor Michael Haneke (Violência Gratuita e A Fita Branca) traz aqui um de seus trabalhos mais delicados, mas nem por isso menos poderoso. Pelo contrário.

Amor narra a história de um casal francês idoso, Anne (Emannuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintgnant). Visivelmente apaixonados, mesmo depois de tantos anos casados, eles passam por um momento difícil. Anne sofre um derrame e mesmo com os cuidados do marido, pouco a pouco sua situação vai se agravando, enquanto Georges vê a esposa perder tudo: os movimentos, a lucidez, a dignidade. 

É uma situação extremamente delicada, justamente pela dificuldade em lidar. Como confortar alguém que está passando por uma situação irreversível, decorrente do fim da vida? Para Anne, que certamente sempre foi uma mulher forte, uma professora de música, ser tratada com pena por um de seus melhores alunos, atualmente um músico famoso, realmente deve ser um sofrimento a parte. E não é uma situação que ela possa dar a volta por cima. Deve ser muito cruel saber que tudo o que nos espera é a piora até que morte nos alcance.

Cenas fortes, como as que retratam violência, não deixam de ser mostradas na filmografia de Haneke quando necessárias, mas em determinado momento em Amor o diretor opta por nos resguardar de  alguns dos momentos mais críticos do processo degenerativo irreversível de Anne. "Nada disso merece ser mostrado", diz Georges em certo momento. Ele está certo.

Graças a cena inicial, nós sabemos exatamente o que vai acontecer ao fim da projeção, o que não deixa a conclusão menos dolorosa ou emocional. Emanuelle Riva, que faz justiça à indicação que recebeu ao Oscar de melhor atriz, está fantástica, apesar de não apagar Jean-Louis Trintgnant com o seu contido e sofrido Georges.

O amor do título se refere, é claro, a relação entre Georges e Anne, principalmente à dedicação do marido pela esposa doente. O amor entre os dois evoca a forma mais completa e verdadeira do sentimento. Além do afeto mútuo, existe respeito, companheirismo, compreensão, fidelidade, cuidado.

Logo no início do filme a câmera focaliza por um tempo a plateia de um concerto, com a presença do casal idoso entre o público. Eles nos observam como observamos a narrativa a seguir. Mais uma vez Haneke deixa ainda mais tênue a relação entre a ficção do cinema e a realidade. Aquela plateia poderia estar acompanhando a nossa vida assim como acompanhamos a de Anne e Georges. E a situação vivida por ambos não está tão distante assim de nenhum de nós.


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